“Dona J. R., 52 anos, casado, pai de
dois adolescentes, sofreu um acidente vascular gerando como sequela uma hemiplegia*.
A hemiplegia lhe trouxe dificuldades motoras e alteração na fala e na
deglutição. Assim, após o período de internamento, há, aproximadamente, seis
meses iniciou em casa acompanhamento fisioterápico 5 vezes por semana e,
também, intervenção fonoaudiológica 3 vezes por semana. O tratamento evolui
bem, porém Dona J. R. não conseguiu compor o arco motor de forma eficiente,
apesar de entrar em função, sempre se decepcionando com a incapacidade de
manusear objetos simples que faziam parte do seu dia a dia – como encher um
copo com água ou qualquer outro liquido, não se servir ou mesmo servir outra pessoa ao
lado, por exemplo, frustrando-se com frequência diante de familiares ou amigos
que o visitavam. O que fazer para ajudar o Dona J. R. voltar a ter
independência nessa atividade e retomar o prazer e a satisfação de receber os
amigos, executando esses e outros movimentos que lhe eram tão automáticos?
Sim,
nosso querido e amado TO! Visto que, para que o arco de movimento seja completo
e eficiente é necessário que haja um planejamento adequado, normalização de
tônus muscular, força e percepção de esquema corporal. No que se refere a tônus
e força, ele foi bem assistido pelo fisioterapeuta, porém é necessário um
trabalho com o processo cognitivo do ato motor. Tal processo depende da
atenção, motivação e situações emocionais relacionadas ao movimento e o
ambiente, pois é neste contexto que o ato acorre. Sendo assim, a questão
emperra justamente no PLANEJAMENTO e percepção
do ESQUEMA CORPORAL. Trabalhar essas habilidades é competência do
profissional de Terapia Ocupacional.
Mas
vamos por partes!
Os
movimentos são controlados pelos centros motores no cérebro, o planejamento
motor, se dá em nível dos gânglios da base*. O planejamento
eficiente envolve a formação de estratégias para alcançar o objetivo desejado.
Durante a execução de uma tarefa, as condições podem se modificar sendo
necessário ativar novas estratégias para alcançar os objetivos. Para tal, há
uma cooperação com o sistema sensório perceptual, que oferece informações ao
sistema nervoso central (SNC) em relação ao corpo, e ambiente. São informações como
o peso do objeto, se está abaixo ou acima de alguma superfície, a textura do
objeto, a distância em relação a aquilo que queremos, entre outros dados
relevantes para que o movimento seja totalmente controlado e eficiente.
A percepção da posição das partes do
corpo em relação ao espaço está vinculada a noção do ESQUEMA CORPORAL. Essa
percepção se baseia na integração do processamento perceptivo das informações
da visão, de propriocepção*, táteis e da sensação de pressão em todas as partes
do corpo, conforme nos movimentamos, assim como a discriminação da direção dos
movimentos, para cima, para baixo, direita, esquerda, e etc.
Agora
que estamos familiarizados com o processo cognitivo do ato motor, podemos voltar
a Dona J. R. Ele apresenta lesão no neurônio motor superior, o que provoca
perda motora e/ou sensorial em um lado do corpo. Sendo
assim, chame o TO para que seja realizada uma avaliação detalhada do paciente,
verificando a existência de negligencia unilateral, identificando o nível de
comprometimento para que lhe seja oferecido uma reabilitação completa e eficiente.
Chama o TO que ele completa! ;-)
(*) Glossário:
*Hemiplegia: Está associado a perdas motoras e sensorial resultado de lesões em um lado do cérebro.
*Gânglios da base: Os gânglios basais estão localizados no diencéfalo. Sua função ainda anda sendo estudado mais tem se reconhecido que eles são importantes para o movimento que se apoia nos dados sensoriais do ambiente.
*Propriocepção: Refere-se à capacidade de identificar a posição do segmento corporal no espaços em auxílio da visão, ou seja usando as informações obtidas dos receptores localizados nos músculos, tendões, articulações e pele.
Fontes:
GRIVE, J.; GNANASEKARAN, L.
Neuropsicologia para Terapeutas Ocupacionais: Cognição no desempenho
ocupacional. São Paulo: Santos, 2010.
TYLDESLEY, B.; GRIVE, J. Músculos,
Nervos e Movimento na Atividade Humana. São Paulo: Santos, 2006.
CRUTCHFIEL, C. A..; BARNES; M. R. Motor
Control and Motor Learning in Rehabilitation. Stokesville Publishing Company,
1993.
SHUMWAY-COOK, A.; WOOLLACOTT, M. H. Controle Motor. Manole, 2003.
